Dor no joelho: existem caminhos diferentes da cirurgia?

1 a cada 3 pessoas com mais de 75 anos tem osteoartrite. A dor no joelho é uma das principais causas de limitação funcional na prática clínica. Tradicionalmente, o raciocínio é centrado na estrutura, cartilagem, menisco, ligamentos, e frequentemente culmina em uma dicotomia simplificada: tratamento conservador versus cirurgia.

 

A questão é que a dor no joelho não é exclusivamente estrutural. A dor no joelho resulta da interação entre mecanismos periféricos (nociceptivos) e centrais (sensibilização do sistema nervoso).
Com o tempo, pode ocorrer um processo de sensibilização central, no qual o sistema nervoso passa a amplificar o sinal doloroso, tornando a dor desproporcional ao estímulo periférico.
Isso explica por que alguns pacientes permanecem com dor mesmo após intervenções estruturalmente bem indicadas.

Quando a dor não acompanha o exame

Esse descompasso entre imagem e sintoma não é exceção — é esperado.
Estudos populacionais mostram alta prevalência de alterações estruturais em indivíduos assintomáticos, enquanto outros pacientes apresentam dor significativa com alterações mínimas.
Isso reforça que a dor não pode ser interpretada apenas como reflexo da estrutura, mas como resultado de um sistema complexo de processamento nociceptivo.

 

Esse fenômeno se explica pelo envolvimento do sistema nervoso no processamento da dor. Com o tempo, pode ocorrer uma amplificação do sinal doloroso, tornando o sistema mais sensível, mesmo na ausência de uma lesão proporcional.

O papel central do estilo de vida

Um dos maiores erros no manejo da dor no joelho é tratar apenas a articulação, sem abordar fatores sistêmicos que perpetuam o processo doloroso. A osteoartrite não é apenas uma doença mecânica. Ela envolve também um componente metabólico e inflamatório relevante.

 

A redução de peso, em quem tem sobrepeso, é uma das intervenções com maior impacto clínico:

 

  • perdas de 5–10% do peso corporal já se associam a melhora significativa da dor 
  • reduções maiores podem diminuir a progressão da doença 

 

Além da carga mecânica, há redução de mediadores inflamatórios associados ao tecido adiposo. 

Mais do que o peso total, a composição corporal é determinante, ela pode ser avaliada por um exame chamado bioimpedância, pois sabemos que baixa massa muscular está associado a pior suporte articular e maior percentual de gordura leva a um estado inflamatório crônico que piora a dor.

 

Outro ponto crucial é saber qual padrão de dor você tem e se houver sobrepeso ou obesidade, qual o seu gasto energético, ou seja, a sua taxa metabólica basal. A forma mais fidedigna de calculá-la é através do exame de calorimetria indireta, que permite evitar dietas inadequadas e entender se o caminho e fortalecimento muscular ou focar apenas na alimentação. 

O uso de medicação para perda de peso deve ser baseado no fenótipo clínico:

Beliscador

Que sente necessidade de comer várias vezes ao longo do dia.

Baixa saciedade

Precisa de grandes volumes de comida pra se sentir satisfeito.

Baixo gasto metabólico

Quando mesmo comendo pouco não emagrece.

Comer hedônico

O alimento é utilizado como forma de alívio emocional, recompensa ou regulação do estresse.

 

Não existe uma única medicação ideal para todos os pacientes.

 

Sabemos também que dietas com alto teor de ultraprocessados e perfil pró-inflamatório estão associadas a piora da dor. Padrões alimentares mais adequados incluem:

 

  • dieta mediterrânea 
  • alimentação rica em alimentos minimamente processados 
  • ingestão adequada de proteínas e micronutrientes 

O que tomar? Antiinflamatório?

O uso de anti-inflamatórios, como cetoprofeno, iboprofeno ou celecoxibe é frequente no manejo da dor no joelho, especialmente na osteoartrite, e pode ser útil no controle sintomático em fases agudas. No entanto, seu papel no longo prazo, principalmente em idosos é limitado, pois não modificam a história natural da doença e estão associados a risco de lesão renal. 

 

A curcumina, principal composto ativo da cúrcuma, tem sido amplamente estudada por suas propriedades anti-inflamatórias e antioxidantes. Seu mecanismo envolve a inibição de vias inflamatórias centrais, além da modulação de citocinas pró-inflamatórias. Ensaios clínicos randomizados demonstram que seu uso está associado a redução de dor e melhora funcional comparáveis ao ibuprofeno em pacientes com osteoartrite de joelho leve a moderada, com perfil de segurança mais favorável. 

 

Os ácidos graxos ômega-3, especialmente EPA e DHA, atuam na modulação da resposta inflamatória por meio da redução da síntese de eicosanoides pró-inflamatórios derivados do ácido araquidônico. Embora a evidência mais robusta esteja em doenças inflamatórias sistêmicas, há dados que sugerem benefício na osteoartrite, particularmente em pacientes com componente inflamatório associado. Nesse contexto, a ingestão adequada de ômega-3 pode contribuir para redução da dor e melhora da função, ainda que seus efeitos sejam geralmente modestos e dependentes do perfil do paciente.

 

A vitamina D deve ser considerada principalmente em pacientes com deficiência documentada, sua correção nesses casos pode contribuir para melhora da função e da dor, sobretudo por seu impacto sobre o músculo e o sistema imunológico.

 

O colágeno oral não atua como reposição direta da cartilagem. Após ingestão, é digerido em aminoácidos e pequenos peptídeos, não sendo incorporado estruturalmente à articulação. Os possíveis efeitos observados decorrem de ação indireta, por meio de sinalização metabólica que pode estimular a síntese de matriz extracelular.
Portanto seu efeito é modesto e não comparável a estratégias que atuam sobre carga, músculo e movimento.

 

De forma geral, o manejo farmacológico e suplementar da dor no joelho deve ser entendido como parte de uma estratégia mais ampla. Nenhuma dessas intervenções, isoladamente, substitui o papel central da reabilitação, do ajuste de carga e da melhora da função muscular. O objetivo não é apenas reduzir a dor, mas criar condições para que o paciente volte a se movimentar de forma eficiente e sustentável, o que, na prática, é o principal determinante de evolução clínica a longo prazo.

Quando pensar em intervenção

A intervenção em dor não é o primeiro passo em todos os casos, mas, quando bem indicada, pode mudar o curso da reabilitação. De forma geral, pensamos em abordagem intervencionista quando o objetivo é reduzir dor para permitir reabilitação ativa, melhorar qualidade de vida e função, acelerar retorno a atividades, ou modular a progressão clínica, mantendo o paciente funcional por mais tempo.

 

Um dos principais papéis da intervenção é quebrar o ciclo dor → inibição → piora funcional. Pacientes com dor limitante frequentemente evitam movimento, perdem força, alteram padrão motor, e entram em um ciclo de perpetuação da dor. Reduzir a dor nesse contexto não é apenas sintomático, é uma estratégia para permitir que o tratamento de base (exercício, carga, reeducação) funcione melhor.

Em pacientes que precisam retornar mais rapidamente à atividade (ex.: prática esportiva), algumas estratégias têm evidência de benefício em curto prazo. O Ácido hialurônico (viscossuplementação) pode melhorar dor e função, especialmente em osteoartrite leve a moderada, com efeito mais consistente após algumas semanas. A Proloterapia atua por estímulo inflamatório controlado e possível modulação nociceptiva, com evidência crescente em dor crônica musculoesquelética. 

 

Os pacientes com dor crônica, limitação funcional relevante ou dor desproporcional aos achados de imagem frequentemente se beneficiam de uma abordagem intervencionista. Nesses casos, o objetivo não é tratar apenas a articulação, mas modular o sistema de dor, reduzir a sensibilização e permitir que o paciente volte a se movimentar com menos limitação, respondendo melhor às demais estratégias terapêuticas.

Quando o diagnóstico é feito precocemente, a intervenção pode ser direcionada para estruturas específicas, como bursas, tendões e fáscias. Isso pode reduzir inflamação local, evitar cronificação e facilitar recuperação funcional mais rápida.

 

As infiltrações intra-articulares podem ser úteis principalmente em fases inflamatórias ou como estratégia de alívio para facilitar a reabilitação. Sua indicação deve ser individualizada, sempre inserida dentro de um plano mais amplo de tratamento.

Os bloqueios de nervos ao redor do joelho (geniculares) funcionam tanto como ferramenta diagnóstica, ao ajudar a identificar a contribuição dos nervos na dor, quanto terapêutica, com potencial de reduzir o sinal doloroso e melhorar a função.

 

Entre as estratégias intervencionistas, a radiofrequência dos nervos geniculares tem se destacado por apresentar evidência mais consistente de benefício em dor e função no curto a médio prazo em pacientes com osteoartrite de joelho refratária ao tratamento conservador. Ainda assim, trata-se de uma abordagem voltada para modulação da dor, não para reversão estrutural da doença, devendo ser indicada de forma criteriosa e integrada às demais medidas clínicas.

Fisioterapia e fortalecimento muscular: a base do tratamento

A melhora sustentada da dor no joelho depende da capacidade de restaurar função, movimento e controle muscular. Por isso a intervenção tanto com bloqueios e infiltrações, como com medicamentos é fundamental para diminuir a dor e permitir que o paciente realize a fisioterapia.

 

A fisioterapia tem papel central nesse processo, ao reeducar o movimento e melhorar a mecânica articular. O fortalecimento muscular, especialmente de quadríceps, glúteo médio e musculatura estabilizadora, contribui diretamente para a redução da sobrecarga no joelho e melhora da funcionalidade no dia a dia.

A cirurgia continua sendo uma ferramenta importante, principalmente em casos bem indicados de comprometimento estrutural avançado. No entanto, ela não deve ser vista como o único caminho possível.

 

Uma parcela significativa dos pacientes mantém dor mesmo após procedimentos cirúrgicos, o que reforça a importância de uma avaliação mais ampla antes da decisão.

 

Quando os mecanismos de dor não são corretamente identificados, existe o risco de tratar a estrutura e manter o problema da dor.

 

Além disso, o exercício bem orientado tem efeito modulador sobre o sistema de dor, ajudando a reduzir a sensibilização e melhorar a tolerância ao esforço. Isso é particularmente relevante em pacientes com dor persistente, nos quais o movimento passa a ser evitado e a perda de função se torna progressiva.

 

Por isso, o objetivo não é apenas fortalecer, mas devolver ao paciente a confiança no movimento, de forma progressiva e individualizada. Quando associado às demais estratégias o exercício se torna um dos pilares mais consistentes no controle da dor a longo prazo.

E a cirurgia?

A cirurgia continua sendo uma ferramenta importante, principalmente em casos bem indicados de comprometimento estrutural avançado. No entanto, ela não deve ser vista como o único caminho possível.

 

Uma parcela significativa dos pacientes mantém dor mesmo após procedimentos cirúrgicos, o que reforça a importância de uma avaliação mais ampla antes da decisão.

 

Quando os mecanismos de dor não são corretamente identificados, existe o risco de tratar a estrutura e manter o problema da dor.

Na prática, a combinação de intervenção no estilo de vida com estratégias analgésicas e intervencionistas é o que gera melhores resultados a longo prazo.

Referências

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